A bela adormecida

22 de abr de 2010












Triste, tímida, ingênua; ninguém acreditava que ela poderia ter aquele dom tão diverso à sua personalidade. No começo, foram apenas alguns versos que, por acaso, alguém a ouviu recitar. Mas a força da expressão e o sentimento colocado nas palavras levaram o ouvinte às lágrimas. Logo, a fama da moça se espalhou. Ninguém nunca ouvira antes poemas recitados daquela forma, retirando sensibilidade até mesmo dos corações mais duros. Era impossível ficar impassível perante a melodia poética de sua voz. Apelidaram-na de mulher-poesia, outros a chamavam de poesia-viva, pois era como se ela fosse a encarnação da arte poética. Os pequenos grupos que se reuniam para ouví-la recitar, aos poucos se transformaram em multidões. As recitações levavam as pessoas ao êxtase. Como em um ritual religioso, as almas eram tocadas e as lágrimas irrompiam.

Até que um dia, a mulher- poesia sumiu. As pessoas, sedentas pelas palavras que as extasiavam, chegaram ao desespero. Era como uma crise de abstinência; tremores, calafrios, choro compulsivo, suas vidas se transformaram em um caos. Resolveram então atenuar o sofrimento procurando um substituto às palavras sonoras. Encontraram-nas nos livros. Surpreenderam-se ao encontrar neles todas as poesias recitadas por sua diva. Liam tentando imitá-la. Aos poucos, descobriram que cada um tinha sua maneira própria de interpretar. A aflição foi diminuindo, descobriram que aquele paliativo poderia ser um bom substituto às suas necessidades. Montaram um templo; lá, reuniam-se para recitar poemas; a mulher-poesia foi elevada à categoria de Deusa. Ninguém nunca soube o que aconteceu a ela. Muitos diziam que aquela mulher nunca havia existido, outros diziam que ela havia realmente se transformado em versos e que agora habitava todos os poemas do mundo.

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